Buftalmia em cães o que é: um termo que aparece em laudos e conversas com veterinários quando o dono nota um olho visivelmente maior, saliente ou “saltado”. Na prática clínica, a palavra descreve a aumento do globo ocular por pressão cronicamente elevada ou por malformações congênitas — e quase sempre é sinal de doença ocular séria que exige avaliação oftalmológica rápida. Este texto explica com profundidade causas, exames, tratamentos, prognóstico e orientações práticas, ligando conceitos técnicos ao que isso significa no dia a dia do seu animal.
Segue uma visão clínica e prática baseada nas normas e recomendações do CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária), dos conselhos regionais como o CRMV-SP e das boas práticas apoiadas por sociedades de especialidade como a ABMVP (Associação Brasileira de Medicina Veterinária de Pequenos Animais), assim como pela literatura científica em oftalmologia veterinária.
Antes do primeiro tópico: entender como a doença se manifesta e por que merece atenção imediata ajuda a priorizar a consulta e a reduzir sofrimento do animal.
O que é buftalmia: definição, fisiologia e diferenças importantes
Definição clínica
Buftalmia é o termo usado para descrever o aumento anormal do volume do globo ocular. Em veterinária, frequentemente indica um processo de glaucoma — que é o aumento persistente da pressão intraocular (a força dentro do olho). Pressão intraocular é a pressão do fluido interno do olho (líquido aquoso) e, quando elevada, danifica estruturas sensíveis como a retina e o nervo óptico, comprometendo a visão.
Por que o olho aumenta
O globo ocular contém um líquido chamado humor aquoso, produzido no corpo ciliar e drenado por ângulos especializados. Quando a produção supera a drenagem (ou quando a drenagem é bloqueada), a pressão intraocular sobe. Em animais jovens, as paredes oculares são mais elásticas: a pressão crônica as distende, resultando em olho aumentado — a própria buftalmia. Em animais adultos, o globo pode ficar tenso, dolorido e a córnea (córnea — a parte transparente e frontal do olho) pode apresentar edema e estrias.
Buftalmia versus outras causas de protrusão ocular
Nem todo olho saliente é buftálmico por glaucoma. Outras causas de protrusão ocular incluem tumores orbitários, abscessos retro-oculares, ou prolapso do globo por trauma. A diferenciação exige exame oftalmológico e, muitas vezes, exames de imagem.
Transição: agora que a definição ficou clara, vamos explorar as causas mais comuns e os fatores que aumentam o risco de buftalmia em cães.
Causas e fatores de risco
Glaucoma primário (congênito e hereditário)
O glaucoma primário resulta de malformações anatômicas do ângulo de drenagem do olho. Em filhotes e jovens, essa alteração é chamada de goniodisgenesia — uma malformação do sistema de drenagem que impede o escoamento normal do humor aquoso. Goniodisgenesia é um termo técnico que descreve alterações do tecido que forma o ângulo iridocorneano, impedindo a drenagem adequada.
É frequentemente hereditário; por isso, programas de criação responsáveis (screening antes do acasalamento) são fundamentais para reduzir a incidência.
Glaucoma primário em adultos
Algumas raças têm predisposição ao desenvolvimento de glaucoma em idade adulta por fechamento progressivo do ângulo. Raças predispostas incluem, entre outras, o Cocker Spaniel, o Basset Hound e outras com histórico familiar de glaucoma; o rastreamento por um especialista é recomendado em raças de risco.
Glaucoma secundário
Glaucoma secundário é causado por outra doença ocular que limita drenagem ou aumenta produção de humor aquoso: luxação do cristalino (quando o cristalino — a lente dentro do olho — desloca-se e bloqueia o fluxo), uveíte (inflamação intraocular), hemorragia interna, neoplasias intraoculares e cicatrizes do ângulo por trauma ou cirurgia. Cada condição exige tratamento específico além do controle da pressão.
Fatores conjunturais: braquicefálicos e exposição
Cães braquicefálicos (focinho curto) apresentam conformação ocular que pode predispor a lesões de córnea, epífora (epífora — excesso de lacrimejamento) e ulcerações, que por sua vez podem complicar e agravar problemas que levam ao aumento ocular secundário. Embora a buftalmia clássica seja mais relacionada a glaucoma, a anatomia braquicefálica influencia apresentação e manejo.
Transição: reconhecer os sinais clínicos é crucial para decidir a rapidez com que se busca atendimento; descrevo a apresentação típica a seguir.
Sinais clínicos: o que você verá e sentirá
Sinais externos óbvios
Os sinais mais visíveis incluem globo ocular aumentado, córnea turva por edema, maior brilho no olho, e às vezes deformação da superfície ocular. O olho pode parecer “mais aberto” e a pálpebra não conseguir fechá-lo corretamente.
Sinais de dor e desconforto
Piscar excessivo, fechar o olho (blefaroespasmo), evitar luz intensa (fotofobia), lamber o olho, e relutância em tocar a cabeça são sinais de dor ocular. Animais com glaucoma frequentemente apresentam dor significativa porque a pressão elevada distende as fibras sensoriais do olho.
Alterações visuais e comportamentais
Perda de visão pode ser súbita ou progressiva. O animal pode trombar em móveis, hesitar ao subir escadas, ou não reagir a movimentos rápidos. Pupila dilatada com reflexos diminuídos, resposta de ameaça ausente e alterações na retina e no disco óptico podem ser encontradas em exame.
Sintomas associados
Epífora, secreção ocular, hiperemia conjuntival (olho vermelho), ulcerações de córnea e, em casos crônicos, estrias corneanas e cicatrizes. Em buftalmia avançada, o olho pode apresentar alterações irreversíveis que causam cegueira e dor crônica.
Transição: diante desses sinais, o diagnóstico deve ser rápido e completo — abaixo, os principais exames que serão solicitados e o que cada um avalia.
Diagnóstico: exames, objetivos e interpretação
Histórico e exame físico detalhado
O veterinário fará perguntas sobre início dos sinais, progressão, trauma prévio, histórico reprodutivo (para questões hereditárias) e tratamentos anteriores. Exame geral para avaliar dor, estado sistêmico e possíveis causas secundárias também é essencial.
Tonometria: medir a pressão intraocular
Tonometria é a medição da pressão intraocular com um aparelho específico. Existem métodos por aplanação (applanation) e por rebote (rebound). A tonometria quantifica a pressão intraocular em mmHg e é o exame obrigatório para confirmar hipertensão ocular. Valores fora da faixa normal confirmam urgência para controle.
Gonioscopia: avaliação do ângulo de drenagem
Gonioscopia é o exame que permite visualizar o ângulo iridocorneano, região responsável pela drenagem do humor aquoso. É realizado com uma lente especial de contato; detecta goniodisgenesia, aderências ou fechamento do ângulo que justificam o glaucoma.
Biomicroscopia e exame da córnea
Com a lâmpada de fenda (biomicroscópio) avalia-se a córnea, a câmara anterior, o cristalino e sinais de inflamação. Teste de fluoresceína detecta úlceras coriáceas. O teste de Schirmer (que mede produção lacrimal) é feito quando há suspeita de olho seco associado: o teste de Schirmer insere uma tira de papel no canto do olho para medir volume de lágrima em minutos.
Ultrassonografia ocular e exames de retina
Quando a córnea está muito opaca, a ultrassonografia ocular permite visualizar estruturas internas e identificar massas, deslocamento do cristalino ou descolamentos de retina. A eletroretinografia (ERG) mede a função retiniana (a retina responde à luz) e é útil para decidir se um olho cegado pode se beneficiar de intervenções que preservem anatomia e conforto.
Exames complementares
Em casos suspeitos de neoplasia ou processos inflamatórios sistêmicos, podem ser solicitados hemograma, perfil bioquímico, exames sorológicos e imagem (radiografia, tomografia, ressonância) para planejamento cirúrgico.
Transição: o diagnóstico orienta o tratamento. A seguir, explico o manejo emergencial e o tratamento médico inicial para aliviar dor e reduzir pressão.
Manejo de emergência e tratamento médico inicial
Por que o tratamento imediato importa
Pressão elevada causa dano progressivo ao nervo óptico e à retina — perda que pode ser irreversível em poucas horas a dias. Reduzir a pressão intraocular rapidamente é prioridade para preservar visão e reduzir dor.
Medicações tópicas iniciais
Colírios que reduzem produção de humor aquoso ou aumentam drenagem são usados imediatamente. Entre eles:
- Beta-bloqueadores tópicos (ex.: timolol) — diminuem a produção de humor aquoso.
- Inibidores da anidrase carbônica tópicos (ex.: dorzolamida) — reduzem a produção de liquido aquoso por ação enzimática.
- Análogos de prostaglandina (ex.: latanoprost) — aumentam a drenagem através da malha trabecular; causam miose (constrição da pupila) e são úteis em muitos glaucomas primários, mas são contraindicados se houver inflamação intraocular grave (uveíte).
Todos estes medicamentos exigem indicação e monitoramento veterinário. Alguns agem em minutos a horas; outros requerem repetição frequente nas primeiras horas.
Medicação sistêmica em urgência
Quando a pressão está muito alta ou o colírio não é suficiente, são usadas drogas sistêmicas:
- Diuréticos osmóticos (ex.: manitol EV) — retiram água do globo ocular temporariamente, reduzindo pressão. Usados em ambiente hospitalar.
- Anidrase carbônica sistêmica (ex.: acetazolamida) — reduz produção de humor aquoso, com efeitos colaterais que exigem monitoramento.
- Analgésicos e anti-inflamatórios conforme necessidade.
Cuidados e contraindicações imediatas
Evite manipulações que aumentem pressão (compressão do globo) e alguns colírios (ex.: alguns midriáticos) que podem piorar o quadro. Se houver úlcera corneana profunda, analgésicos tópicos e certos agentes são contraindicados; a decisão é técnica e deve ser feita por especialista.
Transição: se o tratamento médico não controla a pressão ou se a doença é crônica, há opções cirúrgicas; explico as principais e seus objetivos.
Tratamento cirúrgico e opções definitivas
Objetivos da cirurgia
Reduzir a produção de humor aquoso, criar uma nova via de drenagem ou remover o olho quando irreversivelmente doloroso. A escolha depende de função visual residual, dor, causa do glaucoma e condição geral do paciente.
Procedimentos que reduzem produção do humor aquoso
Procedimentos ciclodestrutivos (ex.: ciclocrioterapia, cyclophotocoagulação a laser) destroem parte do tecido produtor do humor aquoso (corpo ciliar), diminuindo produção. São indicados quando outras alternativas falham ou quando o olho está cego e doloroso, mas têm riscos de inflamação e falha a longo prazo.
Dispositivos de drenagem (implantes de glaucoma)
Implantes valvulados ou não valvulados (similar aos tubos de dreno humanos) criam uma rota alternativa para fluidos. São indicados quando há potencial de preservar visão e quando há acesso técnico e custo compatível. Requerem acompanhamento rigoroso e apresentam risco de complicações como obstrução e infecção.
Facoemulsificação (facoemulsificação) e manejo do cristalino
Quando a causa é luxação do cristalino ou catarata que contribui para bloqueio, a facoemulsificação (remoção da lente por ultrassom) pode resolver a causa primária e reduzir ou resolver o glaucoma secundário. Facoemulsificação é uma técnica microcirúrgica que exige equipe e equipamento especializados.
Enucleação e evisceração
Se o olho está cego e dolorido e as demais opções são inviáveis, a enucleação (retirada completa do globo ocular) é uma solução definitiva que resolve a dor. A evisceração (remoção de conteúdo intraocular e colocação de prótese) pode ser alternativa estética em casos selecionados. Ambas trazem alívio do sofrimento e boa recuperação funcional do animal.
Expectativas pós-operatórias
Dependem do procedimento: alguns exigem antibióticos, anti-inflamatórios e revisões frequentes de tonometria. Implantes e procedimentos ciclodestrutivos exigem acompanhamento para detecção precoce de falha terapêutica.
Transição: após o tratamento inicial, o acompanhamento é essencial. A seguir, explico prognóstico, monitoramento e complicações possíveis.
Prognóstico, complicações e acompanhamento a longo prazo
Fatores que influenciam o prognóstico
A visão residual antes do tratamento, o tempo de evolução dos sinais, a causa subjacente e a resposta ao tratamento inicial são determinantes. Glaucomas primários diagnosticados e tratados cedo têm melhor chance de preservar visão; olhos com dano severo ao nervo óptico ou retina têm prognóstico reservado.
Complicações crônicas
Complicações incluem úlceras de córnea recorrentes, opacidades corneanas, luxação do cristalino, catarata, inflamação crônica e falha terapêutica dos implantes. O animal pode necessitar de medicação tópica crônica para manter pressão controlada e conforto.
Monitoramento
Consultas periódicas com tonometria, exame com lâmpada de fenda e eventualmente ultrassom são necessárias. A frequência depende da estabilidade do caso — inicialmente dias a semanas, depois a cada 1–3 meses se controlado. Documentar fotos e anotações ajuda na comparação ao longo do tempo.
Diferenças entre buftalmia e atrofia progressiva da retina
Atrofia progressiva da retina (um processo degenerativo que leva à perda de visão) não provoca aumento do globo ocular; é uma causa distinta de cegueira hereditária. É importante distinguir veterinária oftalmologista o manejo e as implicações para reprodução são diferentes. Quando a visão estiver comprometida, a eletroretinografia ajuda a diferenciar perda retiniana de perda por glaucoma.
Transição: além do manejo clínico, orientações práticas ao tutor reduzem ansiedade e melhoram adesão ao tratamento; seguem recomendações claras e aplicáveis.
Orientações práticas para tutores: o que fazer em casa e quando buscar ajuda
Quando agir com urgência
Leve o animal imediatamente ao veterinário se você notar:
- Olho visivelmente aumentado ou protuberante;
- Olho muito vermelho, com córnea turva;
- Sinais claros de dor (fechar o olho, chorar, lamber);
- Perda súbita de visão (colidir com objetos, não reagir a movimentos).
Como preparar para a consulta oftalmológica
Leve histórico do início dos sinais, fotos ou vídeos que mostrem evolução, uma lista de medicamentos usados e, se possível, informações sobre parentes de pedigree (se for animal de raça). Transporte com cuidado: evite pressão sobre o olho afetado. Não aplique colírios sem orientação médica.
Cuidados domésticos e administração de medicamentos
Administre colírios conforme prescrição, respeitando horários e técnicas de instilação. Mantenha ambiente calmo e sem luz muito intensa nos primeiros dias. Em casos pós-operatórios, siga orientações sobre atividade física, curativos e retornos.
Questões financeiras e planejamento
Procedimentos oftalmológicos podem envolver custos altos devido a exames especializados e cirurgias. Pergunte sobre opções, prioridades de intervenção e prognóstico realista. Em casos hereditários, evite reprodução do animal afetado para reduzir incidência na população.
Transição: resumo objetivo com passos acionáveis para quem está diante de suspeita de buftalmia ou já recebeu esse diagnóstico.
Resumo conciso e próximos passos acionáveis
Buftalmia em cães sinaliza aumento do globo ocular, quase sempre associado a hipertensão intraocular (glaucoma) ou a malformações congênitas. É condição que pode causar dor intensa e perda irreversível da visão se não tratada com rapidez. Ações imediatas e prioridades:
- Procure atendimento veterinário de urgência ao notar olho aumentado, dor ou perda súbita de visão;
- Não administre colírios sem orientação; transporte o animal com cuidado;
- Solicite avaliação com um médico-veterinário oftalmologista: exames essenciais incluem tonometria, gonioscopia, lâmpada de fenda e ultrassom ocular;
- Se indicado, inicie tratamento emergencial para reduzir a pressão intraocular (medicação tópica e/ou sistêmica) e planeje opções cirúrgicas quando apropriado (implante de drenagem, procedimentos ciclodestrutivos, facoemulsificação ou enucleação);
- Se for animal de raça, converse sobre rastreamento e orientação reprodutiva para evitar transmissão hereditária, conforme recomendações do CFMV e dos conselhos regionais;
- Agende acompanhamento periódico com o especialista para monitorar pressão intraocular, conforto e função visual.
Se houver dúvida entre perda visual por retina ou por glaucoma, peça investigação com eletroretinografia e ultrassom para decisões cirúrgicas seguras. Em última instância, a prioridade é o bem-estar do animal: tratar a dor e preservar qualidade de vida. Contate um oftalmologista veterinário para avaliação completa e plano terapêutico individualizado.